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DÊ UMA MOTO A SEU FILHO, EM SEU ÚLTIMO ANIVERSÁRIO

01/10/2012

Dê uma moto a seu filho, em seu último aniversário
*Jack Szymanski

Este título trágico, porém verdadeiro, é baseado em estudos do Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos, cujos dados fazem parte do Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil.

O trabalho mostra que apesar dos avanços em pesquisas e mais investimentos em saúde nos últimos 30 anos, reduzindo o risco de crianças e adolescentes morrerem de causas naturais no País, aumentou a violência para essa faixa da população no mesmo período.

Entre 1980 e 2010, o total de mortes de pessoas entre 0 e 19 anos por doenças e causas naturais passou de 387 casos em cada 100 mil pessoas para 88,5 por 100 mil, queda de 77%. Por outro lado, cresceu o total de crianças e adolescentes que morrem pelas chamadas causas externas, que incluem homicídios, suicídios, acidentes de trânsito e de outros tipos. As vítimas de causas externas, que somavam 27,8 casos por 100 mil habitantes em 1980, alcançaram 31,9 casos por 100 mil em 2010, aumento de 14,3%.

No caso dos acidentes de trânsito, o estudo revelou peculiaridades interessantes. Na última década, diminuiu o total de mortes entre crianças de 2 a 13 anos. Nos extremos, porém, tanto entre bebês de 0 a 1 ano quanto entre adolescentes de 14 a 19 anos, aumentou o número de vítimas. Para os jovens, esse aumento ocorreu principalmente por causa do crescimento da venda e uso das motocicletas, que representaram 39% das mortes em acidentes de trânsito, à frente do automóvel (19,3%) e pedestres (12%).

Especialistas na área avaliam o jovem de 14 a 18 anos como de “idade complicada”, por ser um motorista “aventurista”. O jovem pega a moto ou a bicicleta e mergulha no meio do trânsito sem pensar muito nas consequências. Se a vida não costuma ser fácil para ninguém, ela parece ainda mais complicada para os adolescentes.

Mais do que excesso de hormônios, a neurociência já identificou na imaturidade do córtex órbitofrontal dos jovens – área do cérebro responsável pelos cálculos de custo-benefício que antecedem as escolhas – uma das causas do excesso de decisões equivocadas nessa faixa etária. A imaturidade leva o jovem a não pensar nas consequências de longo prazo de suas ações e a sobrevalorizar os ganhos de curto prazo.

Normal, sempre foi assim. Há sociedades, no entanto, como a brasileira, que não parecem saber lidar com a infância e a juventude. Mais do que em outros lugares, no Brasil, as consequências dos erros podem ser fatais. O País lidera o ranking da violência contra crianças e adolescentes em diferentes pesquisas. Enquanto em Portugal, por exemplo, os homicídios contra crianças e adolescentes de 0 a 19 anos correspondem a 0,2 caso por 100 mil habitantes, no Brasil essa taxa chega a 13 assassinatos por 100 mil habitantes, total 65 vezes maior.

Nesse sentido, portanto, a sociedade brasileira parece viver um contrassenso. Ao mesmo tempo em que os avanços na saúde permitem diagnósticos mais precisos e o combate mais eficiente a doenças, o Brasil continua parecendo incapaz de construir instituições capazes de garantir comportamentos mais civilizados e menos violentos.

A dificuldade em lidar com a natural irresponsabilidade dos mais jovens fica também evidente no trânsito. Em dez anos, entre 2000 e 2010, as mortes de jovens de 19 anos, por exemplo, cresceram 72%. Segundo o Mapa da Violência no Brasil, entre 2009 e 2010 aumentou em 16,7% o número de mortes de motociclistas e garupas, que chegou a 10.825. Em cada três desastres com mortes registrados pelo Denatran, em 2010, um envolveu motociclista.

As motocicletas, tipo de veículo em que o condutor está mais exposto e vulnerável aos riscos, tornam a vida sobre duas rodas um comportamento quase suicida.

*Médico, diretor do International Traffic Medicine Association para a América do Sul.

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